Alikimista

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Location: Portugal

Monday, September 25, 2006

Diálogo



«Posso beber o amor pelo copo dos teus lábios?»
O disco chega ao fim;
um ruído de rua entra pela janela;
não sei se ainda é dia,
ou se a noite começa.
Mas o mundo não interfere
no equilíbrio frágildas nossas vidas.
Este copo não se esvazia;
e os teus olhos
levam-me à fronteira do sonho,
para que a passe,
e entre contigo num país de nuvem.
O meu passaporte são as tuas mãos;
o mapa que nos guia,
a respiração incerta do desejo.
«Por isso me perco», dizes.
«Por isso te encontro», respondo.
E a noite que nos separa é o dia que nos reúne."
De Nuno Júdice

Sunday, September 17, 2006

Coisas simples



Nunca são as coisas mais simples que aparecem
quando as esperamos.
O que é mais simples, como o amor,
ou o mais evidente dos sorrisos,
não se encontra no curso previsível da vida.
Porém, se nos distraímos do calendário,
ou se o acaso dos passos nos empurrou para fora do caminho habitual,
então as coisas são outras.
Nada do que se espera transforma o que somos se não for isso:
um desvio no olhar;
ou a mão que se demora no teu ombro,
forçando uma aproximação dos lábios.
Nuno Júdice

Friday, September 08, 2006

Será?!!!


"(...) As mulheres vêem um homem novo como uma peça de caça. Já que todas têm licença de porte de armas (há olhos que deveriam ser registados como susceptíveis de causar grandes danos), a apresentação de um homem funciona como abertura de estação. A mulher mostra o novo namorado como se dissesse: «Vejam só o que eu cacei...» Pausando para usufruir um momento de reconhecimento, lança logo o carcaterístico desafio: «E quem o não tentar caçar não é mulher não é nada...»
A rivalidade entre mulheres é um jogo permamente em que os homens são peças temporárias. A maravilha é conseguirem dar aos homens a ideia de que são eles os jogadores, de que são eles os caçadores. O que as mulheres fazem é conceder licenças de caça aos homens sempre que querem caçá-los. Concedem um olhar que diz «Podes caçar-me», mas nenhum homem consegue caçar uma mulher se ela não o quiser, ao passo que o contrário não é verdade. Como os homens têm a mania de ser homens, acontece às vezes que se deixam caçar em coutadas alheias só porque uma perdiz lhes assobiou: «Ai que caçador giro, que espingarda tão inglesa, que casaco tão Uomo-Vogue! Porque é que não tenta vir apanhar-me?» Às vezes basta até que seja uma rola um bocado rameira, ervinha ao canto da boca, que lhe assopre «Então, ó simpático - vai um tirinho?» E enrola-o. (...)"

in "Os meus problemas" de Miguel Esteves Cardoso